O sono do paulistano
Boa é a vida, mas melhor é o vinho.
O amor é bom, mas é melhor o sono.
Fernando Pessoa
Recente pesquisa divulgada pelo Instituto do Sono (São Paulo/SP) exibiu dados alarmantes sobre a qualidade de sono em nossa cidade. O estudo, denominado EPISONO pelos autores , foi realizado pela terceira vez, sendo a primeira em 1987 e a segunda em 1995. Os dados dessa terceira edição, realizada em 2007, foram publicados recentemente e demonstram uma evolução negativa das queixas de sono do paulistano.
No referido estudo, mais de 1000 pessoas com idades entre 20 e 80 anos, selecionadas dentro do mais absoluto rigor científico, passaram por diversos questionários, testes, exames laboratoriais e, logicamente, por uma polissonografia de noite inteira (” exame do sono “). E os resultados surpreenderam: 77% dos paulistanos sofrem de algum tipo de distúrbio do sono, sendo que a maioria destes encontra-se atualmente sem diagnóstico correto ou qualquer tipo de tratamento.
Muitos fatores contribuem para essa alta prevalência de queixas de sono em nossa cidade, tais como o estresse (e as doenças derivadas deste, como ansiedade , síndrome do pânico , dentre outras), os maus hábitos alimentares e sedentarismo (e a consequente obesidade), o trabalho em turno (necessário em uma metrópole que deve funcionar 24h/dia), o uso indiscriminado de sedativos (principalmente sem acompanhamento médico), dentre outros. Ou seja, o estilo de vida do paulistano é um potencial fator de risco para transtornos do sono, entretanto, fatores como predisposição genética e perfil psicológico também influem nesse risco.
Infelizmente, a maioria dos portadores de doenças do sono permanecem anos e anos sem diagnóstico, pois muitas vezes as queixas diurnas são inespecíficas, como cefaléias recorrentes pela manhã, fadiga, sonolência em situações monótonas (como ler um livro ou viajar como passageiro de carro ou ônibus), irritabilidade e/ou distúrbios de memória, sendo que o fato de dormir sozinho dificulta ainda mais o diagnóstico, pois o sono não é observado por terceiros.
De todos os dados revelados pelo estudo EPISONO, merecem atenção especial os seguintes:
- 42% dos paulistanos roncam (3 ou mais noites/semana)
- 33% são portadores de apnéia do sono
- 45% queixam-se de insônia
- 15% possuem insônia crônica
- 24% têm pesadelos constantemente
- 5% tomam remédios para dormir (3 ou mais noites/semana)
- 10% rangem os dentes durante o sono (3 ou mais noites/semana)
- 9% sentem sonolência durante suas atividades diurnas
- 3% são sonâmbulos
- 10% já consultaram pelo menos uma vez um médico queixando-se de distúrbios do sono
Considerando que nossa cidade possui quase 11 milhões de habitantes, esses dados englobam milhares de pessoas, as quais provavelmente sofrem em seu dia-a-dia com doenças sub ou não-diagnosticadas por anos e, até mesmo, por toda a vida.
Mas aí surge uma pergunta: qual o problema em se roncar, ter apnéia do sono ou ter insônia?
A resposta é: boa parte dos distúrbios do sono quando não tratados levam ao maior risco de desenvolvimento, entre médio e longo prazo, de hipertensão arterial, obesidade, derrame cerebral, infarto agudo do miocárdio, diabetes, depressão, ansiedade, alterações de memória e de humor, disfunção erétil, fadiga crônica, déficits de imunidade, alguns tipos de tumores, bem como risco maior de acidentes de trânsito e de trabalho (devido à sonolência diurna).
Soma-se à grande prevalencia desses distúrbios em nossa população o fato de existirem atualmente poucos profissionais especializados em Medicina do Sono, os quais não são disponibilizados pelos planos de saúde, tampouco pelo SUS. Isso resulta em milhares de doentes sem diagnóstico e tratamento adequados, os quais provavelmente evoluirão ao longo dos anos com uma ou mais das consequências acima listadas.
O fato do sono corresponder ao estado no qual passamos cerca de 1/3 de nossas vidas já é uma ótima justificativa para que você preste mais atenção nele e, caso suspeite de qualquer distúrbio, consulte um médico especialista em distúrbios do sono.
Dr. Murilo Lima
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